Condições da Pista

Olá,

Este post deveria estar próximo àqueles que tratam de comprimento de pista para decolagem mas acabei escrevendo sobre condições da pista apenas agora.

Diversos cálculos de performance são influenciados pela condição da pista (seca, molhada, contaminada, etc.) e é importante definir tais condições.

A legislação da FAA trata apenas de pistas secas e molhadas, não mencionando pistas contaminadas (FAR 121.195(d))). Existem apenas recomendações para operação com água, lama ou neve sobre a pista – AC 91-6A e draft AC-91-6B.

No Brasil, não há requisitos de decolagem ou pouso com pista contaminada no RBAC 121 ou mesmo no RBHA 91. A única publicação que tem uma definição de pista contamianda é a IAC 121-1011, que proibe a utilização de redução de tração por temperatura assumida em pistas contaminadas. As definições apresentadas em tal publicação são:

– Pista molhada: é uma pista com água, mas não tanto a ponto de ser considerada

– Pista contaminada: é uma pista na qual mais de 25% do comprimento sendo usado está coberto com uma lâmina de água parada ou outro contaminante (por ex.: gelo, “slush”, ou neve) com mais de 3 mm de espessura. Também é considerada contaminada a pista em que o contaminante cobrir menos do que 25 %, porém está cobrindo uma área relevante para a operação como por ex.: área de rotação e saída do solo ou o segmento da pista onde o avião está em alta velocidade na decolagem onde o efeito de arrasto é mais relevante.

 

A JAA possui definições claras de pistas que vão além de seca e molhada (JAR-OPS 1.480 subpart F). Tais definições são apresentadas abaixo:

– Pista seca (dry runway): é aquela que não se encontra molhada nem contaminada e inclui aquelas pistas pavimentadas que foram especialmente preparadas com grooving ou pavimento poroso (PFC) e mantidas para conservar a capacidade de frenagem de pista seca quando há umidade presente.

– Pista úmida (damp runway): uma pista é considerada úmida quando sua superfície não está seca mas a umidade sobre ela não possui aparência brilhante.


Nota: A FAA e a ANAC não fazem menção à pista úmida, que deve ser considerada molhada, enquanto o JAR-OPS 145 diz que uma pista úmida deve ser considerada seca em termos de performance de decolagem.


– Pista molhada (wet runway): é aquela cuja superfície está coberta por água ou equivalente, com profundidade igual ou inferior a 3mm (1/8 in), ou quando há umidade suficiente na pista para que sua aparência fique reflexiva, porém sem áreas significativas de água empossada. Uma pista molhada não é considerada contaminada.

 

Nota: Até 1988 a FAA (e, consequentemente, o Brasil) não requeriam contabilização de desempenho para pistas molhadas, porém, isso é requerido para aeronaves certificadas após essa data, de acordo com o FAR 25 amendment 25-92. Com isso, aeronaves homologadas antes de 1988 não requerem que seja considerado o desempenho em pista molhada (ex: B737-300), porém as aeronaves mais novas devem possuir performance para pista molhada no AFM obrigatoriamente (ex: B737-700, EMB-170, EMB-190, etc.). A JAA requer contabilização de performance em pista molhada para todas as aeronaves.


– Pista contaminada (contaminated runway): é aquela que tem mais de 25% de sua superfície dentro do comprimento e largura requeridos cobertos por:
– Água empossada (standing water) com profundidade superior a 3mm (0.125 in);
– Slush: água saturada com neve, encontrada em temperaturas em torno de 5˚C, com densidade aproximada de 0.85kg/litro)
– Neve Molhada (wet snow): se for compactada com as mãos permanecerá junta e tenderá a formar uma bola de neve. Tem densidade aproximada de 0.4kg/litro.
– Neve Seca (dry snow): neve que pode ser compactada com as mãos e irá separar-se novamente quando solta. Tem densidade aproximada de 0.2kg/litro.
– Neve Compactada (compacted snow): Neve comprimida (coeficiente de fricção típico de 0.2);
– Gelo (ice): Coeficiente de fricção igual ou inferior a 0.05.

 

– Pista escorregadia (slippery runway): é considerada escorregadia a pista que tem acúmulo de neve compactada ou gelo, com decréscimo da eficiência de frenagem durante a desaceleração de uma aeronave. O arrasto gerado por precipitação durante a aceleração da aeronave é considerado despresível em pistas escorregadias.

 

A contabilização de performance para pistas contaminadas e escorregadias é requerido pelo JAR mas não pelo FAR. A FAA permite que os operadores façam essa contabilização a seu critério (FAA AC 91-6A e Draft AC 91-6B).

Além dos conceitos acima, é importante conhecer os conceitos de coeficiente de atrito (ou coeficiente de fricção), representado pela letra grega μ (mi), que são considerados em cálculos de performance. Estes conceitos serão apresentados em outro post.

Até breve.

 

JOÃO CARLOS MEDAU

João Carlos Medau iniciou sua carreira na aviação em 1994, acumulando mais de 11 mil horas de voo em aeronaves como Bandeirante, Brasília, ATR, Boeing 737, Fokker 100, Airbus A318/319/320 e A330, exercendo também funções de instrutor e examinador credenciado. Atualmente, é Comandante e Instrutor de Airbus A330 em rotas internacionais. Medau é graduado em Ciência da Computação, com Mestrado e Doutorado em Engenharia de Transportes pela Escola Politécnica da USP.

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